Certa vez, em entrevista à Rádio Canadá, Jean Paul Sartre colocara que há uma clara distinção entre o intelectual e o cientista.
"Um intelectual, para mim, é aquele que é fiel a um conjunto político e social, porém não deixa de discuti-lo"
"Um intelectual aparece a partir do momento em que o exercício da sua função faz surgir uma contradição entre as leis desse trabalho e as leis da estrutura capitalista."
"(...) um cientista nuclear (por exemplo), não é um intelectual. É um cientista na medida em que faz as suas pesquisas. Mas se o mesmo cientista, na medida em que leva a cabo suas investigações nucleares, se dá conta que com o seu trabalho irá possibilitar a guerra atômica, e se ele denuncia isso, é porque ele o sente como uma contradição." (Sartre, 1967)
As colocações do pai do existencialismo são precisas em diferenciar o sujeito moderno que trabalha para si seguindo uma razão imposta de cima pra baixo na sociedade, e a qual ele não apresenta capacidade de contestar, e o sujeito que sente em tal pressão uma coisa sem razão de ser, ou no mínimo sem sustentação lógica em alguns pontos.
Essa falta de sustentação pode ter como base a nossa excessiva e inevitável dependência da realidade tácita. Na medida em que o sujeito dependa do pão de cada dia para viver, mesmo alguns dos mais estudados cientistas sucumbem perante a pressão que a realidade lhes impõe de nascer, crescer, procriar e inevitavelmente morrer. E na medida em que nos é impossível averiguar se realmente existe ou não vida depois da morte, essa realidade dita o jogo para o homem comum e para aqueles que buscam na ciência alguma explicação, mas que simplesmente acabam ganhando nas suas faculdade um manual de manuseio da realidade. Ainda assim, mesmo fazendo a escolha pela submissão à realidade, esses cientistas terão que carregar a sina de por fim não saberem mais 0,0001% de todo conhecimento disponível no mundo.
Na figura do intelectual, não só aquele que enxerga as contradições na sociedade capitalista, mas na existência como um todo, a humanidade deposita suas fichas para tentar escapar do cerco que a realidade tácita nos coloca. Essa confiança se dá por falta de outro figura a quem confiar¹, mas ainda assim, continuamos a sermos limitados pela estrutura física na qual se assentam esses intelectuais. Eles precisam comer, dormir e viver como qualquer um, e também se tornam reféns da sua existência, concedendo às suas pesquisas um viés de abstração que passa pela sua condição material.
Como escapar disso? Alguns filósofos ao longo da história escaparam por serem ou muito ricos ou muito alheios à sociedade, e suas trajetórias ficaram famosas, cita-se o caso de Nietszche e Platão, mas ainda assim esses tiveram seus viéses. Outros ainda escaparam fazendo um acordo interno com o mundo em que vivem, estudando um tanto da vida prática e outro tanto da profunda abstração, como o próprio Sartre e Heidegger.
Uma solução que eu aparentemente vislumbro está em algumas filosofias orientais como o budismo, que se prega em algumas correntes a quebrar a lógica nossa do dia-a-dia, através de meditações e práticas anti-materiais.
Essa é uma possível solução, que daremos continuidade no próximo post.
Link para a entrevista completa de Sartre à Rádio Canadá:
¹Estamos descartando aqui as figuras dos padres, pastores e afins que dizem já ter encontrado a resposta, os padres e pastores que assumem não ter encontrado e que possuam bagagem de estudo, caem na categoria de intelectuais.
http://steampunk.com.br


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